"Toda a revolução é essencialmente inútil. O indivíduo é um produto de
dois factores — a hereditariedade e o meio. Dois indivíduos nascidos no
mesmo meio são diferentes pela hereditariedade (pois mesmo que sejam
irmãos, há na hereditariedade o factor chamado "variação") e são
semelhantes pelo meio. Todo o agrupamento formado em determinado meio —
como é formado pela aproximação dos indivíduos seus componentes, e esses
indivíduos se aproximam e se entendem por o que há neles de comum, que é
o que neles é produto do meio — é pois um reflexo desse meio. O
agrupamento que faz uma revolução tem pois a mesma mentalidade e o mesmo
carácter que o agrupamento que essa revolução derruba e substitui. Uma
revolução pode pois definir-se "um modo violento de deixar tudo na
mesma".
Como, pois, se reforma uma sociedade? É simples: por um movimento não
colectivo, isto é, por um impulso puramente individual. Há dois tipos
de indivíduos em que a influência do meio é subordinada à da
hereditariedade: são as duas variações extremas chamadas o louco e o
génio — variações, aliás, aparentadas, pois o génio, seja o que for
socialmente, é biologicamente loucura. Não há reforma social que não
parta de um homem de génio. Desse homem de génio passa para uma pequena
minoria, dessa pequena minoria para uma minoria maior, até que alastra
para a sociedade inteira. Não é, pois, inteiramente absurdo o conceito
"providencialista" da vida das sociedades: a civilização é obra de
homens de génio." (Fernado Pessoa)
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